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  • Mariam Abed Ali

Realçando belezas sem padrões


Meu nome é Mariam, 29 anos, bacharel em Estética & Cosmetologia (2011), fundadora da @bortocali e estou aqui para compartilhar um pouco da minha história.

Brasileira de origem libanesa, cresci dentro de uma cultura que me fez questionar muito os padrões e crenças que não somente na árabe ou brasileira, passamos a vida achando que é "aquilo" e ponto final. Lembro-me de alguns episódios onde eu tomava a frente nos assuntos sobre o porquê aquilo que nos ensinavam como errado, não podia ser certo e vice-versa. No decorrer da #vida, deparei-me com pessoas de estatura alta, baixa, magras, gordas, bem de vida ou de baixo padrão e como a sociedade nos ensina muito a (falsa tentativa e crença) alcançar um "padrão de beleza e de vida" para sermos aceitos diante de uma realidade que não faz parte de nós.

Sempre fui fascinada por olhos, olhares, expressões, amava observar o quanto os nossos e os alheios podiam nos confortar, balançar e nos "causar" emoções. No último ano do ensino médio, em 2007, comecei a atender alguns conhecidos para aparar as sobrancelhas e fazia algumas maquiagens a fim de realçar a beleza das mulheres. Naquele mesmo ano, criei a #bortocali e o slogan continua sendo "realçando belezas sem padrões". Bortocali significa a cor laranja em árabe, a qual me remete a boas vibrações, energias e vitalidade.

Em 2008, aos 16, ingressei na universidade. Nos anos seguintes montamos protocolos para clientes que tinham como objetivo perder medidas. Fez parte de nossa grade de aulas, pré e pós-operatórios de mulheres que passaram por cirurgias como lipoaspiração e até ressecção mamária em casos de câncer de mama. Nosso intuito sempre foi proporcionar bem estar e conforto para nossas pacientes. Em todas essas aulas eu me perguntava - como conseguir proporcionar bem estar a essas mulheres que estavam passando por mudanças e efeitos, que em muitos casos, eram radicais e irreversíveis?

Me formei em 2011 e nada de protocolos! Estava claro para mim que cada cliente recebe um protocolo diferenciado após anamnese e que existiam possibilidades para cada caso. Mas, algo nisso tudo, me bloqueava e sentia que a minha missão ainda não era ali. Chega #outubrorosa de 2012, o mês voltado para a #saúde da #mulher e me deparo com um incômodo caroço na minha mama esquerda. Marquei consulta com a ginecologista e começamos a saga dos exames. O nódulo crescia rapidamente e a suspeita de ser um câncer se tornava cada vez mais presente. Eu precisava de um mastologista, um cirurgião plástico e essa era uma busca desgastante, angustiante e medrosa pra mim. Em quem confiar? Como saber se estou sendo acompanhada por bons profissionais?

Tinha apenas 21 anos e muitas dúvidas em relação a como meu organismo reagiria com uma cirurgia dessas. Chegamos em julho de 2013 e a cirurgia se aproximava e minha insegurança só aumentava. Haja psicológico para conseguir dar conta de tanta coisa ao mesmo tempo. Engraçado... Eu sabia que não era a única que passava e iria passar por algo parecido: ter que lidar com questões da vida pessoal e profissional numa situação dessa. Chegado o dia, me entregam um termo de conscientização para assinar: "O paciente está ciente que poderá sair da cirurgia sem um ou os dois seios? O paciente está ciente que poderá sair da cirurgia com uma prótese em um ou nos dois seios?". Muito bem, assinei e pensei - quem é que vai me proporcionar um bem estar agora? Os papéis se inverteram.

Cirurgia, OK! Mama direita, INTACTA! Mama esquerda... Mama esquerda com ressecção do quadrante inferior, pois retiraram um nódulo de 11 centímetros. Aquele, que era um incômodo caroço no começo, e mais 3 nódulos logo atrás, que não apareceram nos exames. O termo estava assinado e eu anestesiada, “dale” prótese. Mas, o "vazio" continuava... CADÊ O PEDAÇO QUE ESTAVA AQUI? Um ano e meio depois, encapsulamento dessa prótese. Caramba! Como incomoda isso aqui. Não vai dar pra operar agora. Preciso dar andamento na minha vida, na minha carreira e no momento não tenho condição financeira para arcar com outra cirurgia. Vambora! A gente dá conta.

A questão é que a gente sempre dá conta... mas, não dá pra abraçar o mundo se você não cuidar de você mesma. A vida é um conjunto de processos que acontecem simultaneamente. Ainda bem, né?! Já imaginou tudo parar para você só focar no "problema"? Complicado.

O ano de 2013 foi só o começo da saga. Foi o pontapé inicial para começar a me convencer cada vez mais, que cuidar de si mesmo é a coisa mais importante. Não significa pisar, inferiorizar ou prejudicar os outros, mas, sim pra começo de conversa, reservar um tempo das 24 horas diárias que temos para você se olhar, se enxergar e atender as suas necessidades. O autocuidado não vem de um cabelo escovado, uma extensão de cílios ou até uma sobrancelha feita. Isso e muito mais é só a cereja do bolo. O autocuidado vem do olhar gentil que você PRECISA ter com você mesma. E isso começa internamente. Se cuidar externamente é lindo. Mas, a jornada se perde na escassez quando você não arruma a bagunça aí de dentro. Somos mente, corpo e alma. Se um desses três estiver em desequilíbrio e você não parar um tempinho para ajustar, uma hora a conta chega. Não se cobre. Tome posse daquilo que você é responsável: A SUA VIDA.

O autocuidado começa no bom dia que você dá abraçando seu corpo cheio de celulite, estria, um seio maior que o outro, a bunda caída ou empinada. Começa no banho demorado, na meditação matinal ou até noturna para entrar no sono tranquilo. Começa na descoberta daquilo que não te faz bem e o que faz. É sobre Gentileza, é um dia de cada vez. É um exercício que vira hábito e isso se torna um compromisso consigo mesma. Não romantize o sofrimento, o olhar triste para o quanto o seu corpo mudou, para o quanto você mudou. Apenas acolha e entenda... Somos feitos de emoções positivas e negativas. Hoje triste, amanhã a tentativa de resgatar um sorriso sincero para si. Como diria minha psicóloga "Mari... Liberte suas emoções". Quanto mais reprimimos o que sentimos, mais o nosso corpo grita por socorro. O cuidar de dentro para fora é uma questão de saúde integral, é refletiva. Se não estou bem por dentro, por fora posso estar passando cremes caros, fazendo procedimentos na loucura do alcance daquele corpo “perfeito”. A perfeita tragédia anunciada num silêncio interno ensurdecedor. O corpo, esse corpo que te sustenta, pede por um socorro cada vez mais alto, quando você não fecha os olhos e tenta entender a bagunça interna para depois arrumar.

Há anos me programo para fazer o procedimento de correção da mama por conta do encapsulamento, um tipo de rejeição. Porque na época eu assinei o termo, mas eu não queria por nada nesse mundo ter uma prótese, um corpo estranho aqui no lugar do meu vazio natural. Mas algo muuuito importante que a minha médica disse, foi: “Mariam, se você não fizer as pazes com você mesma antes de fazer esse procedimento, em seguida você terá outra rejeição em relação a prótese. POR FAVOR, cuide internamente, do seu eu, do seu coração, do seu psicológico, e depois a reação do seu organismo vai ser MAIS positiva!”

Hoje, ainda tenho lutas diárias com a minha condição de saúde que não se resume a essa cirurgia. Mas, essa outra parte, fica para um próximo capítulo.

Só queria pedir um favor: normalizem o cabelo bagunçado, o pijama velho e confortável, dormir com uma meia no pé e no outro não, babar, derrubar café na roupa do trabalho e ainda sair para o happy hour. Andar de tênis ao invés de salto o tempo todo, "tomara que caia" para os corpos mais gordos, o shortinhos pra galera das pernas finas. Meus dois dentes que ficam na “cara do gol”, SEMPRE tem um orégano, uma folha verde, alguma coisa ali depois de alguma refeição e paciência. Às vezes, não saí com palito de dente e não vou deixar de sorrir no meio do restaurante por causa disso. Obrigada!

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