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  • Mariana Mangini Seabra

Nunca mais serei a mesma

Atualizado: 12 de mai. de 2021



“O que reúne e atrai as pessoas

não é semelhança ou identidade de opiniões,

Senão a identidade de espírito,

a mesma espiritualidade ou

maneira de ser e entender

a vida”

Marcel Proust

E bem isso! E quando você volta para as suas origens, nunca mais será a mesma que saiu de lá. É um sentimento de estrangeirismo. Seremos eternamente um ser híbrido. Essa palavra híbrido, é usada cientificamente. Mas, acho que apropriação dessa palavra se faz perfeita no uso das ciências humanas.

Ao longo da história tivemos muitos êxodos. Eu, por exemplo, sou uma nordestina que emigrou para o Sul. Você sempre faz esse movimento de deslocamento achando que é para a sua melhora. Mas, que melhora é essa? Financeira, de carreira, de aquisição de bens? A um preço de viver longe dos verdadeiros afetos?

Existe uma troca - uma troca de cultura onde o sujeito que faz o deslocamento, sempre é o que sofre mais a interferência da cultura onde está imerso.

Mas, ao retornar para o local de nascimento ou pertencimento, também transforma aqueles ao seu redor. Exemplos clássicos são os sertões e cidades como Governador Valadares. Eu escrevi sobre esse tema [emigração] na minha tese de pós-graduação que foi Emigração Nordestina para SP. Achei que no meu caso, como emigrante, minha imersão acabaria ali, em São Paulo.

Com essa tese de pós-graduação, acabei sendo convidada para ser ouvinte em uma das aulas mais disputadas da USP - a de Urbanismo.

Eu não fui estudante da USP, fui do Senac. Mas, minha orientadora era da USP e a bancada de avaliação da minha pós foi de lá também. Uma das doutoras da bancada me indicou na Universidade de São Paulo. Mas, eu trabalhava feito um camelo e não conseguia ir às aulas, toda quarta-feira às três da tarde ... no meio do dia, no meio da semana. Minha chefe queria me matar. Aí o destino me fez, mais uma vez, migrar. Na verdade, imigrar.

Dessa vez, mudei de hemisfério. Hoje, moro super ao norte, bem ao norte, aqui em Port Credit no Canada. O Canada é um país feito de imigrantes. Lembro de ter feito um churrasco com o pessoal da minha sala de inglês e existiam 12 nacionalidades diferentes ou mais. Quase uma conferência da ONU.

Acho que quando fazemos esse deslocamento, sempre criamos expectativas sobre o que iremos encontrar. Mesmo sendo um país multicultural, talvez o maior do mundo. E, também, por ser um país de primeiro mundo, se prepare para lutas culturais diárias.

Já estou longe de minha terra natal, vamos dizer assim, fazem 17 anos. Saí de casa, diria, uma menina sonhadora. Os sonhos mudaram. Hoje, àquela menina, é mãe de três crianças lindas.

Sempre tive a ideia de que essa mudança seria fácil, já que estamos falando de um país de “primeiro mundo”. E quando falamos de primeiro mundo, achei que em termos de educação, os melhores, como eles são conhecidos e rotulados, seria “piece of Cake”, ou seja, tarefa fácil, leve.

Nesse meu novo movimento, migrei com família toda - marido e filhos. Meu marido já tinha morado aqui por volta de 1992. Ele já era cidadão Canadense e meus filhos, consequentemente, adquiriram a cidadania. Mas, quando você chega aqui são muitas barreiras, começando pela língua. Mais que a língua, tem a cultura.

Em 2014, mudamos para cá definitivamente. Minha pesquisa de casas começou em 2013. Vi 100 casas em 15 dias. A dificuldade começa em se adaptar nas casas que são construídas para a realidade daqui. Desde cozinha open concept [conceito aberto], até armários no quarto - que quase não existem. Situação que estranhei muito.

Vamos a algumas situações. A maioria das pessoas não dão bom dia em elevadores. Não é por falta de educação, e sim, por não querer interromper os seus pensamentos. O que para mim era estranho. Mas, me acostumei. Olhar no olho, só se você estiver conversando com a pessoa. Isso eu não consegui me adaptar. Até por ter como característica, no meu ser, o observar, a curiosidade, o simples olhar. Outra coisa muito interessante, que hoje é comum no mundo, mas que aqui sempre foi: aprender a ficar a 1 metro de distância do outro. Chegava até a ser engraçado. Se você se aproximasse muito, o sujeito andava para trás, para manter o 1metro de distância. Assuntos básicos e unicamente conversados com estranhos, ou novos amigos, seja em eventos sociais ou não, são sobre o tempo e esportes [até coloquei esses temas como leituras obrigatórias]. Acho um saco. Gosto de falar de arte, cinema, novela, culinária...São muitos ajustes. Gosto de lembrar dos churrascos com o pessoal da minha sala de inglês. Mais de 12 nacionalidades reunidas em um só lugar. Cada um com sua bagagem e sua cultura. Foi um aprendizado muito rico. Eu gostava de ficar observando todos os comportamentos.

Mas, com crianças e marido é um desafio. É um deslocamento mais duro, bem diferente do meu primeiro deslocamento [Bahia/São Paulo].

A educação das crianças aqui é diferente. Elas têm muito mais obrigações. A casa é um bem de todos e todos devem cooperar [aliás, isso deveria ser super normal em qualquer lugar do mundo, né?]. O papel do casal é ajustado e compartilhado. Aqui somos sozinhos, sozinhas... a família está longe. Essa situação requer mais “coragem” para criar os filhos sem o suporte familiar. Hoje, temos um grupo de brasileiras bem grande. Nos ajudamos com dicas e sugestões. Até quando criamos afinidades, essas pessoas viram “novos membros da família”. Mas, é preciso estar aberto. Logo que cheguei no Canada, infelizmente não tive esse grupo, esse apoio. Nos últimos dois, três anos, o “Êxodo do Brasil” tem sido mais intenso para cá. Ao mesmo tempo, existe o movimento contrário. Conheço muita gente que não aguenta o frio ou a distância da família e acaba voltando para o Brasil. São escolhas. Nem tudo são “flores”, mas não posso dizer que são só espinhos. Amo a educação das pessoas, a ausência do “jeitinho brasileiro” aqui, isso para mim é um luxo. É sim ou não e pronto. Esse “talvez” do Brasil, o caminho do meio dá margem para muita coisa. Gosto de me sentar num bar e ver tantos rostos e fisionomias. É uma paleta de lápis bem colorida. A liberdade [com segurança] das crianças e, principalmente, dos adolescentes, me conforta e aquece o coração. Ah, e as estações do ano bem definidas! E saber que a vida continua aos 25 graus negativos. É magico!! Dificilmente a vida para. Não deixamos de sair porque está chovendo forte ou porque tem neve. Eles aproveitam todas as estações no limite. Amo essa ideia, do Carpe Diem, do poeta Horácio - “Aproveite o dia”. Eles me ensinaram muito sobre isso, e sobre respeitar o outro, respeitar regras. Eles usam aqui essa expressão “Embrace the Canada”. Literalmente, nós brasileiros, não somos bons em respeitar regras. Mas, se faz necessário.

Como falei antes, já estou longe da minha cidade raiz há 17 anos. Aquela menina sonhadora continua em mim. Agora, mãe de 3 filhos incríveis e esposa de um super companheiro, que me faz rir todos os dias!

Esse é um assunto que tenho muito orgulho de falar - imigração, mulheres, real equidade de gêneros. A cada dia, está mais forte a imigração e a formação desse sujeito híbrido dentro de mim.

E encontrar esse espaço genuíno de fala, que é a Mezcla Mulher, é gratificante!


Mariana Mangini Seabra


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