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  • Mezcla Mulher

Lar: ser ou estar?



De onde você é? Onde você está? Ser e estar tem diferença. Ser é essência, estar é estado momentâneo. De onde somos, nos faz carregar raízes. Onde estamos, só é possível porque caminhamos. Não nascemos e mudamos nosso sangue, muito menos nossas origens, mas no decorrer da vida aprendemos a nos deslocar o corpo físico.

Meus pais são libaneses, passaram por guerras no Líbano, infância simples e por vezes difícil, como a realidade de muitos. Em 1987, chegaram em Ciudad Del Este (Paraguai), onde se casaram. Em 88, minha irmã mais velha estava chegando ao mundo, nasceu em Foz do Iguaçu – PR, que faz fronteira. Mas, continuaram a morar em Ciudad Del Este até 91, ano em que nasci e ali ficamos. Três anos depois, chegou minha irmã mais nova.

Em 97, meu pai começou a trabalhar em São Paulo. Ficamos nós, 3 meninas e minha mãe, em Foz do Iguaçu. Longe do nosso pai, porém perto de muitos familiares. Os encontros eram quase que em tooodos os finais de semana para brincarmos e aproveitarmos a infância. E claro, ainda sentíamos muito a falta do meu pai e a ansiedade tomava conta porque não sabíamos quando apareceria, afinal, ele sempre fazia surpresas. Nossa mãe, dona Hanaa, fazia o possível e o impossível para tentar amenizar a falta dele. As tarefas e as dificuldades dos nossos pais, eram diferentes. Mas o esforço e afeto deles caminhavam juntos. Hoje, quando olho para toda essa situação, olho com mais amor para eles. E se eu fosse um deles? Como eu reagiria? Como eu AGIRIA? Não tem como saber. As experiências de cada pessoa pertencem a cada uma. O que acontece é que aprendemos a acolher um pouco mais as decisões dos outros e olhar com mais gentileza.

Em 2003 meus pais tomaram a decisão de que moraríamos todos juntos em São Paulo. Mas, esqueceram de um detalhe: conversar com a gente, as filhas. Naquela época, eu lembro de já estar aqui em São Paulo e o telefone fixo tocar no apartamento onde meu pai morava. Era o “José do carreto”, o José que faria a nossa mudança de Foz do Iguaçu para São Paulo. Minha mãe saiu correndo do banheiro gritando “NÃO DESLIGUE! É O MOÇO DA MUDANÇA”. Eu estava paralisada com o fone na mão e sem entender nada. Quando ela desligou, sentou e me disse “Mariam... Nós 4 vamos morar em São Paulo com o baba (pai em árabe)! Êêêêêê!!” E eu com 11 anos de idade e a maior “cara de bolacha do mundo”, disse - “Mas... Como assim? Eu não me despedi dos meus primos. Eu achei que a gente ia brincar logo juntos de novo logo logo. Você disse que estávamos aqui para visitar o baba. Tudo bem, estou com MUUUITAS saudades dele mas... Como a gente vai visitar meus primos? São quase 16 horas dentro de um ônibus para chegar. Mãe... QUE QUE TÁ ACONTECENDO? O QUE VOCÊS FIZERAM?”.

O que eu não vi naquele tempo, foi que eles tinham responsabilidades e queriam um lugar onde conseguíssemos ser uma família unida de perto, porque de longe era bom, mas faltava um pedaço... Nosso pai! A cidade grande nos proporcionou choros derramados, assédios sofridos, medos renovados a cada amanhecer por conta do desconhecido, risos em meio a crises de “como a gente vai fazer isso aqui dar certo?”. Algumas inseguranças e preconceitos. Com o tempo, as coisas foram se ajeitando: vimos um mundo de oportunidades em MUITOS aspectos. A primeira etapa dos meus pais, foi mudar de país. Uma cultura totalmente diferente, costumes, pessoas, comidas, roupas, recepção e... o astral. O astral era diferente. Para eles o impacto foi tão imenso, maior do que para nós como crianças que saíamos de uma cidade pequena do Paraná, para a grande São Paulo. São mudanças diferentes, sensações QUASE parecidas, mas únicas para cada um. Eu já questionava muito a vida e virei uma criança rebelde, enquanto minhas irmãs estavam indo no fluxo e os meus pais driblando muita coisa pelo caminho.

Minha mãe é uma das que sofre ainda até hoje. Sofre, principalmente, com a ignorância das pessoas que NÃO QUEREM entender o que é a religião muçulmana. E por ela ser adepta ao uso do hijab (véu), vira um alvo mais fácil de ataques. Qualquer ser humano que seja diferente “daquilo” que as pessoas “aceitam” como válido na sociedade, vai sofrer de algum modo. Quem são os validadores? O que fazem? O que comem? Bom... Não sabemos. Sabemos que julgam. Na vida nos deparamos com pessoas que serão acolhedoras, outras, ofensivas. A dona Teka, que descanse em paz, era moradora aqui do andar do prédio que moramos e acolheu minha mãe como filha. Tantos choros da minha mãe e essa senhora afagou em seu colo e ver ela fazer isso pela minha mãe foi uma das coisas mais bonitas que já vi acontecer. Dona Teka e o vô Denny, nos acolheram como família e viramos uma só!

Meu irmão nasceu em 2006, aqui em São Paulo mesmo. Meus avós moravam no Líbano, não muito adeptos a tecnologia, os encontros eram normalmente quando conseguíamos ir até lá, 16 horas de viagem de avião. Bom... Meu irmão adotou os dois como vovó Teka e vô Denny. Nós também. Impossível não amar esses dois. Ninguém substitui ninguém, mas é lindo ver como quando a gente transborda, conseguimos multiplicar esse amor todo! Quando minha avó materna faleceu, dona Teka havia partido há uns 2 meses. Minha mãe sentiu bastante, alguém que a aceitava como ela exatamente é, “diferente”. Além de ter mostrado o que é ter paciência com a ignorância alheia e ainda assim não deixar de ser quem é, partiu desse mundo. E sentiu de novo, mais ainda quando dona Zainab partiu. Alguém que deu a graça de ver esse mundo e ser criada nele. Que ensinou minha mãe e todos os seus irmãos sobre amor e união. Saudades, “seto Zainab”.

Dona Teka é o exemplo do amor que a gente encontra fora de casa. Lar é onde o coração faz morada. Dona Zainab, do amor que a gente é: lar é onde o amor nasce. Emigrar e imigrar, escolhas ou opções que a vida mesmo se encarrega de te fazer caminhar. Sempre leve a bagagem mais importante, independente dos socos, dos pontapés... Migre-se, QUANTAS VEZES FOREM NECESSÁRIAS, com o amor que carregar das passagens que você faz pelo mundo e espalhe-o. Fique onde for gentil com você, aonde a maioria for mais acolhedora, onde te trouxer paz. Onde te proporcione a beleza de conhecer pessoas que te façam ver o mundo e viver nele de maneira melhor. Meus pais, até hoje são gratos por estarem onde estão. Ficam divididos. Sentem falta dos que moram no Líbano, Angola, Dubai, Canadá e outros tantos lugares espalhados no mundo. Mas, entendem um pouco mais que, graças ao acolhimento do povo brasileiro, foram capazes de nos proporcionar uma vida mais serena, tranquila. E, “de quebra”, ainda ganhamos alguns amigos verdadeiros.

Tatuei na região próxima do pé esquerdo, o contorno do mapa do Brasil, e do pé direito, o contorno do Líbano. Lado esquerdo, coração, onde nasci. Lado direito, raiz, sangue que carrego. Esteja num lar onde você consiga ser o que carrega. O amor não é a resposta, ele é o caminho.

Forte abraço, até a próxima <3

Mari.



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